O azar que chega e grita

Comecei a tentar contrariar ao máximo a tendência que tenho para achar que devo ter nascido naturalmente com azar, que alguém me deve ter rogado uma praga logo à nascença. Tento sempre lembrar-me de que existem pessoas que estão bem pior que eu. Mas isso não invalida que já passei por certas coisas na vida que não eram supostas e que, nesse aspecto, também existe quem esteja melhor que eu.

Bom, não interessa. Já dizia o outro que o mundo é bué cenas e a vida pessoal sucede-o: tanto boas como más. É o que é.

Pois que, então, já há tanto tempo que não sentia um azar daqueles na minha vida, que o próximo tinha de chegar com alarido (e tanto alarido que faz): neste prédio com dezenas de casas e mais pessoas ainda, em que já interagimos com algumas bastante simpáticas e prestáveis, tivemos o azar de viver por cima das únicas que são o completo oposto.

Já seria chato o suficiente serem o tipo de pessoa que se queixa de qualquer barulho normal do dia-a-dia, ou que não compreende que, mesmo quando existe um barulho mais intenso, é porque tem de acontecer (ocorre-me quando há umas semanas estávamos a tentar arranjar a cadeira do meu namorado, a uma sexta-feira à tarde, já agora).

A pior parte, no entanto, é serem pessoas completamente mal-educadas, que berram de forma agressiva, violenta, e nos chamam nomes do conforto do seu lar. Se calhar, não é aceitável dizer isto em 2026, mas eu abro uma excepção para este casal de quarentões que não tem mais que fazer: são completamente malucos da cabeça.

Já tentámos de tudo: apelar à razão de forma respeitosa (não resultou), ignorar (não resultou), responder de volta (na verdade, foi só porque me enervei por ter de ouvir berros violentos só porque o meu namorado deixou cair o telemóvel...). Estou tão cansada destas pessoas, mas fico mais cansada ainda de mim mesma; pela forma como a minha ansiedade não me permite simplesmente ignorar, não me permite fazer de conta que não se passa nada e está tudo bem. E, se for preciso, um berro estraga-me o dia inteiro — mas também ninguém gosta de ser perturbado dessa forma naquele que é suposto ser um sítio seguro.

O meu próximo, único e último plano é registar por escrito todas as vezes em que assim se comportam e gravar também com câmaras que vou, infelizmente e forçosamente, comprar para captar tudo aqui em casa. Uma amiga de uma amiga é polícia e disse que a agressividade é, por si só, suficiente para fazer queixa, mas que convém ter tudo gravado. Portanto, assim faremos.

E não se preocupem, sei perfeitamente que, neste país, uma queixa provavelmente não dará em nada. Mas quero que as pessoas comecem a perceber que existem consequências para o comportamento desajustado que expressam.

Onde quero chegar com esta publicação? A lado nenhum, apenas desabafar sobre algo que me tem afectado profundamente, ainda que não o deseje. Sou-vos sincera: escrever sobre filmes, séries e livros tem deixado de me fazer algum sentido.

Por outro lado, acho que ajuda sempre deitar cá para fora aquilo que nos apoquenta e, portanto, enquanto fizer sentido, permitam-me que assim o faça. Pode não ser um texto bonito, porque o assunto também não o é, mas é um suspiro de alívio — um que não resolve o problema, mas cria alguma tranquilidade.

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