Livros | Coisas de Loucos, Catarina Gomes

Catarina Gomes preparava uma investigação sobre antigos pacientes «loucos» do Hospital Miguel Bombarda — um hospital psiquiátrico agora encerrado — que, de alguma forma, estavam ligados a pessoas conhecidas (pacientes que assassinaram figuras importantes, um amigo próximo de Fernando Pessoa...) quando encontrou uma caixa repleta de objectos aleatórios e abandonados. Foi assim que percebeu que precisava de mudar o rumo da sua investigação: encontrar os donos destes objectos — pessoas completamente anónimas —, fazer conhecer o seu nome, contar-nos a sua história.


E então, a partir de objectos como cadernetas bancárias, bilhetes de identidade sem foto, materiais de costura, desenhos, contou-nos a história de alguns dos pacientes deste hospital que, de outra forma, nunca teriam sido conhecidos.


Que livro incrível. Mostra muito bem as competências de investigação da Catarina, dado que a quantidade de informações que ela conseguiu recolher sobre alguém com base em objectos que não contariam qualquer história sobre ninguém é impressionante.


Mostra também as suas competências de escrita, porque contou a história destas pessoas com uma empatia tal que conseguiu cumprir o objectivo de as humanizar — pessoas que, inicialmente, não tinham nome ou sequer cara, que estavam reduzidas a algo como uma caixa com ponteiros de relógio.


É um livro muito triste, porque todos estes pacientes viveram numa altura em que a doença mental era (ainda mais) estigmatizada; passaram anos — uma vida inteira, na verdade — presos neste «hospital», que na altura ainda era chamado de «manicómio» e, mais tarde, «asilo», a viver sem qualquer dignidade.


Há tantas cartas que escreveram a pedir ajuda, tanto com coisas insignificantes como com coisas importantes, e é devastador perceber que estamos a ler algumas delas porque nunca foram enviadas. Que os seus pedidos e necessidades eram simplesmente ignorados, ainda que fossem pedidos de ajuda legítimos. É triste perceber o quanto se sentiam abandonados, porque foram abandonados.


É ainda mais triste pensar que muitos deles teriam conseguido conduzir vidas relativamente normais hoje em dia, com medicação e dignidade. Em vez disso, tiveram o azar de viver numa altura em que existiam terapias inacreditáveis (as últimas duas chocaram-me porque eu nem sabia que existiam como forma de tratamento...):

  • Lobotomia;
  • Terapia de choque (hoje chamada de electroconvulsivoterapia; ainda se faz, mas de forma bastante mais controlada!);
  • Indução de coma;
  • Infecção propositada com malária.


Tal como Catarina diz no seu livro:


«Todos podemos adoecer, mas o tipo de doença e o momento histórico em que tal acontece, que coincide com o nosso tempo de vida, determinará que peso irá ter na nossa vida: se vai ser um incómodo, uma interrupção, ou um fim.»


Infelizmente, para Leopoldina, Noé, Simão, Manuel, Valentim, Clemente, Ricardo e Jaime, as suas doenças marcaram o fim da vida como a conheciam. Uma interrupção que nunca mais teve fim até à morte.


Por último, fiquei muito surpreendida com o facto de um destes pacientes ter nascido numa aldeia que faz parte do meu concelho. Foi uma sensação muito estranha de «tão perto, mas tão, tão longe».


Se ainda não leram este livro, não há qualquer recomendação mais clara que vos pudesse dar. Importante e empático na mesma medida, ficará comigo por muito, muito tempo.

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