fire and earth
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Um daqueles filmes cujo nome já tinha ouvido tanto por aí, mas nunca tinha visto.

Numa sociedade futurista, Tom Cruise interpreta John Anderton, um detective de "Pré-crime" — a tecnologia avançada permite predizer crimes antes de serem cometidos, e John apenas tem de descobrir a tempo onde estes iriam ser realizados para que possam prender os futuros perpetradores. Até ao momento em que, num dos crimes previstos, ele próprio é o assassino.

Este filme é o sonho de qualquer professor de Filosofia — aliás, o meu namorado disse que o viu nessa disciplina na escola —, porque é um excelente objecto de questionamento e toca em muitos temas de reflexão interessantes.

Deveriam mesmo prender pessoas que nunca chegaram a cometer qualquer acto criminoso; deveria a sociedade ser assim tão predeterminista? Não seria possível que alguns desses eventos pudessem ser alterados antes do seu momento de chegada? Seria possível que algumas previsões pudessem ter detalhes enganosos, facilmente questionáveis, que pudessem levar a que se prendesse uma pessoa inocente, que não iria cometer acto criminoso algum?

E só a própria "tecnologia" em que estas previsões assentam é altamente questionável, tornando certas pessoas prisioneiras sem uma vida digna ou liberdade.

Enfim, os pequenos momentos de acção não me moveram — não sou a maior fã do género —, mas as ideias e conceito por trás deste filme são muito enriquecedores e é um daqueles filmes que valem bastante a pena ver para nos deixar a reflectir.

Gostei muito!





Na semana passada, dei por mim a sentir imensa pena de só estar a pagar por uma aula por semana (existem três por semana, mas quero continuar o treino de força que faço há anos, e portanto €), a sentir vontade de continuar a minha aprendizagem, a querer que a aula desta semana chegasse o mais rápido possível.

No meio de tudo isto, também senti medo e fui acometida por uma estúpida síndrome do impostor:

    • "E se chego lá e esqueci tudo?"
    • "E se chego lá e já não sei fazer outra vez, porque passou tanto tempo?"
    • "E se chego lá e sinto medo novamente?"

Tentei ser racional e pensar que iria chegar lá e começar exactamente de onde tinha deixado. Mas estes diários são para serem como o filme: o bom, o mau e o vilão. E para dizer a verdade, cheguei lá e senti imensa dificuldade de voltar ao ponto de onde tinha deixado da última vez.

Não em termos de medo; esse já ficou desbloqueado (felizmente). Mas a verdade é que, efectivamente, cheguei lá e já não sabia fazer outra vez. Tentei, passei a aula toda a tentar; mas os meus pés estavam sempre a ir ao fundo. Claro que, com o tempo a passar, fui melhorando outra vez — o problema é que já estávamos quase no final da aula quando finalmente me comecei a ajeitar de novo.

Suponho que seja normal; a verdade é que 1) o meu corpo (e cérebro) não estão habituados a estes movimentos; como nunca aprendi, não me saem assim tão naturalmente. E 2) foi só a segunda aula e, tal como em tudo, existe uma curva de aprendizagem.

Não vou dizer que não me senti desencorajada quando me sentia a falhar uma e outra vez, mas, apesar disso, persisti (e ajudou ter uma colega a encorajar-me e a puxar por mim, de início). Diria que persisti ainda mais e fiz ainda mais, porque queria treinar o máximo que conseguisse numa sessão. Mesmo quando já conseguia, voltei a fazer o mesmo uma e outra vez para tentar que o meu corpo se habitue aos movimentos.

Neste momento, outra dificuldade que sinto é em conseguir fazer tudo ao mesmo tempo: se me concentro em treinar as braçadas, começo a deixar de me focar nos pés — e, lá está, ainda não é natural e automático para mim. Além disso, ainda não consigo levantar a cabeça para respirar; só consigo 'nadar' com a cabeça debaixo de água. Mais uma vez, se me tento focar nisso, perco tudo o que estou a tentar fazer.

Bom, é o que é; mesmo nos treinos de força que faço, quando existe um exercício novo mais complexo, às vezes também é difícil coordenar todos os seus elementos em conjunto. Claro que, aí, demoro menos tempo a conseguir; mas é para isto que estou a pagar: para aprender.

Infelizmente, acho mesmo que uma aula por semana é pouco, mas, mesmo que deixasse os treinos, as outras aulas não são dadas pela mesma professora; e, pelo que ouvi sobre o outro professor, não sei se tenho assim tanto interesse em tê-las... Era nestas alturas que dava jeito ser rica para ter piscina em casa e ir treinando sozinha (a modalidade que pago não permite ir livremente para esta piscina).

Ah, e: hoje estou com uma dor terrível de pernas e braços; se calhar, é bom sinal. Ou não. Genuinamente não faço ideia.

Natalie é uma influencer "tradwife", isto é, defende o estilo de vida americano pioneiro e tradicional, onde não entra a modernidade. Tem milhões de seguidores no Instagram que adoram acompanhar a sua vida num rancho, com os seus seis filhos e o marido cowboy. O que ninguém sabe é que Natalie vende uma mentira; que existem amas, uma produtora e vários electrodomésticos escondidos na cozinha. Certa manhã, Natalie acorda em 1855 e, de repente, tem mesmo de viver na era que defende — e arranjar uma forma de escapar.

Esta é a forma como o livro está publicitado, embora ache importante dizer, desde já, que o livro não tem um foco assim tão grande (ou relevante) em 1855 ou nas dificuldades de Natalie em adaptar-se. Acho que a sinopse faz o livro parecer algo mais dentro da fantasia ou thriller, mas, na realidade, o livro não é nada disso — é melhor ainda que isso.

É um livro que toca em temas importantes, como o feminismo, papéis de género, maternidade, conservadorismo (e a sua hipocrisia), mas, mais ainda, o papel das redes sociais, a forma como tantas pessoas mostram uma vida que não têm, a exploração que influencers fazem dos seus filhos, enfim, a forma como se vende uma mentira.

E neste livro, essa mentira é levada a um extremo que não se espera ao ler a sinopse, e que só posso descrever como sendo completamente de loucos. A vida desta família é insana, muito graças a vários dos adultos que também não são muito saudáveis por si só.

Natalie é a protagonista de quem não se gosta, com quem não se consegue simpatizar. Pessoalmente, acho-a uma pessoa horrível. Mas não é a única; e o que é certo é que, ainda assim, em certos momentos não consegui não sentir pena dela, nem deixar de achar que ela é, à sua maneira, também apenas uma vítima do sistema.

No final, este livro surpreende, não apenas pelo que explica o aparecimento repentino em 1855, mas também porque nos mostra que Natalie não é a única vilã nesta história e que existe um outro vilão, bem mais subtil e dissimulado.

Gostei muito deste livro. É uma autêntica viagem, repleta de elementos insanos, mas que ainda assim permanece verossímil. Deixou-me completamente agarrada à leitura.

Recomendo muito.





Nunca aprendi a nadar. Em criança, sempre tive medo. Em adulta, sempre tive vergonha de tentar aprender em piscinas de lazer, onde as pessoas vão veranear. Mas, na verdade, durante grande parte da minha vida tive vergonha em sequer dizer às pessoas que não sabia nadar. Hoje em dia, não me importo — não acho de todo que seja motivo de vergonha; é normal, é o que é, e há tantas pessoas que não sabem. Mas ainda tenho vergonha de aprender em qualquer piscina (e continuei a sentir medo).

A ideia de aprender a nadar tem marinado na minha cabeça durante anos — anos a mais; na verdade, já deve ter passado mais de uma década.

O primeiro passo que tomei nessa direcção foi no ano passado, mas o sítio que contactei acabou por não oferecer o serviço nesse ano e, com o tempo, fui fazendo o mesmo que já tinha feito antes: fui deixando o assunto passar.

Este ano, decidi que não passava daqui.

Tive ontem a minha primeira aula de natação. Estava uma pilha de nervos, até porque nada sabia dos restantes alunos (que acabaram por ser todos mais velhos que eu), do ou da professora (tinha tido feedback maravilhoso de uma professora, mas não sabia se ainda era a mesma — spoiler: era e ela é fantástica), do que iria fazer na aula, ou se iria estar muita gente (a piscina é partilhada com outros utilizadores).

Quando vos digo que não sei nadar, não sei mesmo: não consigo (bom, não conseguia! 😉) estar deitada na água e tentar mexer-me sem ir ao fundo ou atrapalhar-me, não consigo boiar, enfim, nada.

Pois bem, a primeira aula teve progressos que eu não imaginava: já consigo "nadar" (mal e porcamente, portanto, muitas aspas aqui) sozinha durante algum tempo. Quando consegui atirar-me à água e ficar naquela posição, só a dar aos pés (mais tarde, já avançámos para os braços também), e manter-me assim durante parte da pista, e avançar sem a ajuda de "noodles", de pranchas, de braços a segurarem-me — a sensação foi indescritível.

Decidi criar esta série de posts para mais tarde poder relembrar esta experiência, que tanto tempo levou a consumar-se; mas também porque, um dia, pode servir para encorajar alguém na mesma situação.

Estou para lá de orgulhosa de mim própria por ter dado este passo e por já ver resultados; e estou a gostar tanto da experiência; faz-me sentir feliz e realizada. Acho que este será o dinheiro mais bem gasto da minha vida.

Mais um para o qual vou utilizar a sinopse, porque não conseguiria transmitir melhor:


«Dois anos antes de sair de casa, o meu pai disse à minha mãe que eu era muito feia» é a frase inicial deste romance. A revelação é feita por Giovanna, que ao olhar paterno se transformara de criança encantadora em adolescente imprevisível, que parecia tornar-se cada dia mais parecida com a desprezada tia Vittoria.

A frase ouvida sem que os pais o soubessem vai levar Giovanna a procurar conhecer a tia, cujas fotografias foram apagadas dos álbuns de família e é evitada em todas as conversas.

Para saber se estará realmente a tornar-se semelhante à tia, vai visitar a zona empobrecida de Nápoles, a conhecer uma versão diferente dos seus pais, provocando sem o saber a desagregação da sua família intelectual, compreensiva e perfeita na aparência.

Confirmando a sua mestria narrativa e o profundo conhecimento do que se passa na cabeça das adolescentes, Ferrante constrói um enredo surpreendente, ligando uma história de iniciação aos episódios de uma pulseira que passa de mão em mão. Giovanna move-se entre duas famílias e duas zonas da cidade em busca dela própria, na passagem da adolescência para a idade adulta.


Sei que venho muito tarde, mas é o primeiro livro que leio de Elena Ferrante, embora queira muito ler a tetralogia napolitana. Embora seja uma autora muito falada, não fazia qualquer ideia do que esperar.

Gostei muito da escrita da autora; é muito fluida e é daquelas que já me ensinaram umas quantas palavras novas (aliás, excelente trabalho também na tradução).

Não sei se consigo fazer justiça nesta review porque sinto que o livro toca em tantos temas diferentes: a adolescência, no geral; a sexualidade; o corpo feminino e a imagem corporal; gerações diferentes; classes socioeconómicas diferentes; a realização de que os pais (ou os adultos, no geral) também têm defeitos; a formação (ou consolidação) de certos traços de personalidade, de certos valores; enfim, o crescer como um todo.

Parecem muitos pontos a deslindar num só livro, mas nota-se porque Elena Ferrante é tão falada. Aqui não existe "menos é mais", nem tem de existir quando a autora desenvolve tanto com tanta mestria.

Sinto que Elena Ferrante capta muito bem a complexidade e a montanha-russa de emoções e desafios que é a adolescência. Aliás, vi muito do meu Eu adolescente neste livro, e não propriamente da forma mais positiva; embora não exactamente com os mesmos problemas ou pensamentos, muitas preocupações que aqui estão têm por base sentimentos que, acredito, muitas adolescentes experienciam.

Gosto também especialmente do papel que a imagem corporal tem neste livro, da forma como retrata o crescimento de alguém que está a descobri-lo (em si e nos outros), e nem é tanto pelo lado sexual, mas pelo facto de, como mulheres, existir sempre esta dualidade de algo que causa vergonha, insegurança, ao mesmo tempo que serve de objecto sexual para os homens.

Dito isto, senti que algo estava a faltar neste livro e não sei precisar o quê. Gostei muito, mas sinto que ainda precisava de algo mais. De qualquer forma, continua a ser uma recomendação clara.







Heretic

Duas missionárias Mormon visitam um teologista que manifestou interesse em conversar sobre a sua religião, mas depressa se apercebem de que talvez se tenham enfiado na toca do lobo e poderão não conseguir escapar.

Achei o filme muito interessante em termos filosóficos; tudo o que é discutido sobre religião é enriquecedor (tanto de um lado como do outro). O Hugh Grant também teve uma prestação impecável.

Ainda assim, o filme deu tantas voltas à história que acabou por me perder um pouco; acho que algumas escolhas não resultaram assim tão bem. De repente, este filme parece daqueles que nos levam numa autêntica viagem, mas em parte senti que se puseram a inventar demais. Em todo o caso, de um modo geral, gostei do filme.





The Miseducation of Cameron Post

Mais um filme que conheço graças ao film club digital onde estou, sem o qual nunca teria ouvido falar deste título. O responsável pelo clube tem dividido a agenda por temporadas este ano — e este foi o filme que encerrou a temporada de filmes queer (infelizmente, não consegui estar presente na maioria).

Estamos em 1993 e, após ser apanhada aos beijos com uma amiga, Cameron Post é mandada pela tia — com quem vive — para um centro de terapia de conversão. É a essa experiência que assistimos, com tudo o que se pode esperar: uma figura autoritária, rígida e inflexível; a "cura" sempre com a "ajuda de Deus" e o papel da religião; a homossexualidade sempre tratada como se fosse uma aberração, um pecado.

Confesso que, por algum motivo, esperava sempre ver jovens a rebelar-se, mas achei interessante que o filme não quisesse ir por aí; na verdade, talvez seja mais realista que a maioria das pessoas acabe submissa ou, pelo menos, resignada ao seu destino (ainda mais numa época em que era ainda menos aceite).

Ainda assim, não é um filme fácil de ver. É triste e revoltante quando vemos que familiares destes jovens acham que os estão a ajudar, quando acreditam que os puseram ali por amor. Mas posso já adiantar que tem um final algo esperançoso. Gostei muito e recomendo.





Finalmente, cheguei a um dos livros da saga de Hunger Games que ainda não tinha lido, apesar de ter ido ver o filme ao cinema. Com a minha péssima memória, claro que já nem do filme praticamente me lembrava; por isso, de certa forma, foi quase como conhecer a história pela primeira vez.

Começo já pelos pontos menos positivos, mas de pouca significância: achei o livro um pouco longo sem ser necessário e, em certos momentos (mais especificamente, nos concertos dos Covey), um pouco repetitivo.

Ainda assim, este livro é bastante bom e parte de uma premissa interessante: achamos que vamos ler como Snow se tornou o vilão que conhecemos dos primeiros três livros, apenas para percebermos que ele nunca foi uma boa pessoa para começar.

E, nesse sentido, este livro é um 'character study' muito decente. Acho que tinha potencial para ser ainda melhor, mas talvez isso não tenha lugar num livro de young adult.

Em todo o caso, acho que está muito bem feita a forma como Snow parece, inicialmente, uma pessoa pelo menos decente, fazendo-nos questionar como raio se tornou ele num vilão — embora no livro se perceba bastante mais rápido o seu carácter problemático, em comparação com o filme.

Rodeado de pessoas que o amam e apoiam, Snow contraria um ambiente enriquecedor para criar uma pessoa decente. Em vez disso, é uma pessoa calculista, com tendências narcisistas e, paradoxal e simultaneamente, com complexos de superioridade e inferioridade que o ditam como vítima de todos, mas, ao mesmo tempo, como alguém acima de muitos que o rodeiam.

Talvez me esteja a repetir um pouco, mas acho mesmo que isto é aquilo que torna o livro numa experiência interessante — a forma como se centra na personagem e nos apresenta o seu mundo, de um ponto de vista de um vilão complexo e problemático.

Gostei muito. Falta ler apenas o quinto livro, Amanhecer na Ceifa, que é também uma prequela; mas fá-lo-ei a pouco tempo de sair o filme, em Novembro. Estou a gostar muito desta 'viagem' que decidi fazer por toda a série este ano.




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