Um desabafo rápido

Confesso que ainda me passa várias vezes pela cabeça desistir do blog. Que não me passa a sensação de estar a escrever para o boneco. De estar num deserto. Até ver, não aprendi a lidar com essa voz, só a calá-la, a enfiá-la numa gaveta para não se ouvir tanto, enquanto tento continuar a fazer o mesmo que sempre fiz.

Mas foi também a isto que me permiti: a experimentar esta nova realidade. Só quero dar tempo suficiente para que seja uma experiência com pés e cabeça.

Não ajuda ver as estatísticas; não pelos números, mas porque é uma sensação estranha ver tantas visitas de países que não lembram ao menino Jesus, sendo essas por vezes a esmagadora maioria das visitas numa publicação ou em determinado dia. Não faço ideia se serão bots, mas sei que a sensação que fica não é a de estar a ser lida por humanos. E depois, só permanece a questão: o que é que estou a fazer aqui?

4 comentários

  1. Percebo essa sensação de estar a escrever para o vazio. Se gostas de escrever, não deixes que esta fase te faça desistir já. Às vezes demora até encontrarmos o nosso lugar, e às vezes o nosso lugar é mesmo onde estamos. Sempre que um desiste, os outros ficam mais sozinhos. Eu continuo por aqui a ler-te. Um beijinho.

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    1. Não vou desistir para já; se e quando o fizer, quero que seja depois de ter tentado durante algum tempo. O blog exige um cuidado que não teria ao escrever apenas para mim mesma, infelizmente fica a sensação de que esse pequeno "esforço" extra não vale a pena. Às vezes sinto que estamos todos numa negação estranha, mas é, obviamente, uma generalização injusta. O que é certo é que nunca mais nada disto será o mesmo... E isso é, sem dúvida, triste. Por enquanto, vamos ficando cá...

      Agradeço as palavras 💛 Um beijinho.

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  2. Olá. Sei bem que nenhum comentário apaga a estranheza de olhar para as estatísticas e ver interações frias ou tráfego fantasma que parece não vir de nenhuns olhos humanos. Essa sensação de "gritar no deserto" é real e morde. Mas gostava de deixar aqui uma perspetiva, se me permitires.

    Ter um blogue hoje em dia — e este espaço em particular — é um exercício de resistência e de organização mental precioso. O blogue serve-nos primeiro para arrumar as ideias e as memórias com um nível de exigência e cuidado que nenhuma rede social permite. Obriga-nos a burilar o pensamento.

    Encontrar o tom e a narrativa que nos dão conforto leva tempo, mas é aí que mora a beleza da coisa e a real vontade de continuar. Escrevemos, em primeiro lugar, para nós próprios. Para nos compreendermos. O eco exterior vem depois, ao seu próprio ritmo.

    O teu blogue tem uma vertente cultural muito forte e bem vincada. Talvez — e isto é apenas uma sugestão de quem gosta de te ler — abrir um pouco mais a porta a divagações pessoais, cruzando essa crítica cultural tão boa que fazes com o teu "eu" e o teu quotidiano, ajude a tornar este processo mais leve e prazeroso para ti. Traria mais sangue e humanidade ao ecrã, e talvez te desse o aconchego que as estatísticas te andam a roubar.

    Dá tempo ao tempo. O que estás a fazer aqui é a criar um objeto com valor, num oceano de coisas efémeras. Força nisso!

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    1. Olá, Daniel! Obrigada pelo comentario, antes de mais. É bom saber que continuam a haver leitores do outro lado.

      Não discordo de nada do que disseste. Às vezes penso é que posso escrever para mim mesma em qualquer outro sítio — mas também é verdade que provavelmente o faria sem o mesmo cuidado que aqui coloco; o tal cuidado e exigência que referes.

      Tempos houve em que fazia aquilo que sugeres. Depois, sinto que aconteceu uma série de coisas: a azáfama do dia-a-dia retirou-me tempo de reflexão; passei a sentir-me mais desconfortável com a vulnerabilidade (que nunca me fez sentir confortável, no geral); e comecei a guardar tudo o que era pessoal para mim e para a minha vida. Agora, sempre que tento — e não é tantas vezes quanto gostaria —, parece estranho.

      Em todo o caso, vou pensar nesta sugestão, em remar contra a maré, e de que forma posso incorporá-la neste blog.

      Mais uma vez, agradeço imenso as palavras. Uma boa semana!

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