Filmes | I Saw The TV Glow

Em I Saw The TV Glow, vemos Owen, um adolescente, que passa o tempo imerso num estranho programa de televisão — gosto que partilha com a sua colega Maddy, sendo que vêem o programa juntos várias vezes. É um programa sobrenatural e, à medida que o filme avança, o programa mistura-se com a realidade de uma forma que dificulta a Owen perceber o que é real e o que não é.


Quero tentar fazer justiça a este filme, porque acho que é tão importante, mas, na mesma medida, é incrivelmente desconfortável. Foi uma experiência que ficou comigo, que vai ficar por muito tempo; mas não sei se estou numa fase em que quereria ter visto algo deste tipo. Trouxe-me muitas emoções e um desconforto que hoje, dias depois, ainda vive comigo.


É um filme muito metafórico e simbólico, completamente aberto à interpretação. Para mim, duas coisas tornam-se claras nele: numa primeira camada, retrata a forma como a nossa identidade pode estar tão ligada às várias fontes de media que consumimos e que hoje existem no mundo. Mas, numa camada bem mais profunda (mas que o filme transmite de forma bem mais clara), mostra-nos aquilo que perdemos quando não somos verdadeiros connosco; quando não somos autênticos; quando não existe coragem de sermos nós próprios.


Esta mensagem é sugerida numa perspectiva LGBTQIA+ e, mais especificamente, trans. E o que acontece quando alguém reprime algo tão fundamental é que se começa a definhar — literal e metaforicamente. Perde-se o verdadeiro Eu, que morre aos poucos, em prol não se sabe bem do quê (pressões sociais e familiares). Quando a personagem percebe que não é esta realidade que quer viver, é tarde demais.


Este filme é visualmente belo, com uma paleta de tons incrível. A banda sonora é maravilhosa. E deu-me muitas vibes de David Lynch, o que, para mim, será sempre um ponto positivo.


Mas quem conhece o trabalho de David Lynch já pode perceber que também este filme de Jane Schoenbrun contém muita bizarria. Tem cenas incrivelmente desconfortáveis; primeiro, que apenas pretendem criar alguma confusão, mas, a partir de certo ponto, que pretendem realmente mexer com as entranhas das pessoas, surpreender com emoções negativas.


Obriga-nos a sentar com esse desconforto e é talvez este o único motivo por que acabei por dar uma nota menor do que o filme talvez merecesse. Não por ser mau, não por não merecer mais; mas porque me deu uma experiência desagradável numa altura em que talvez não a quisesse viver. Acho que estou simplesmente numa fase mais sensível em que não é isto que quero sentir. Mas isso nada tem a ver com o filme em si, que está incrivelmente bem feito e, para quem tiver estômago, é uma forte recomendação.


Por outro lado, gostava apenas de acrescentar que vi pelo menos duas pessoas no Letterboxd, trans, falar do quanto este filme as ajudou a reconhecer quem são e a expressar a sua identidade aos outros. Isto é incrível. Talvez o desconforto do filme seja para aqueles que já o viviam.


(3.75)

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